27 abril 2014

BAKUNIN, DEUS E O ESTADO

"O cristianismo é precisamente a religião por excelência, porque ele expõe e manifesta, em sua plenitude, a natureza, a própria essência de todo o sistema religioso, que é o empobrecimento, a escravização e o aniquilamento da humanidade em proveito da divindade."
Mikhail Aleksandrovitch Bakunin

Em seu livro "Deus e o Estado", Bakunin — um dos precursores do Anarquismo —, com muita propriedade, cultura e sobriedade, cospe na religião, esbofeteia a cara de Deus, e ainda dá um chute na bunda do nosso Criador; em nome da paz e da liberdade de todos os seres humanos.



Nesse vídeo, o Prof. Tiago Menta dá detalhes da vida desse líder anarquista russo Mikhail Bakunin (1814-1876):



Para ver um trecho do livro clique aqui.

13 abril 2014

RUPTURAS

Se a vida fosse uma parede, cada tijolo dela seria uma ruptura. Há solução de continuidade por todos os lados da vida. Florescem as rotas entrecortadas, os desvios irrompidos, os caminhos torcidos. Pululam os laços desatados, as despedidas e as feridas das partidas. A vida é rica em anelo quebrado ao meio, devido a sua realização que não veio. Viver é ter para depois perder, é obter o que com certeza um dia vai desaparecer. E esse ter para depois perder, é sofrer, é morrer um pouco toda vez que se deixa de possuir o que se desejava continuar a se ter. Assim, ter é, em primeiro lugar, uma esperança de sofrer quando o que se tem deixar de se ter. Então, viver é ter que sofrer, já que tudo o que se tem um dia vai-se perder.



11 abril 2014

PASTORES DO AXÉ

Quando tinha os meus 4 anos de idade, ainda no final da década de 1950, eu morava em Belo Horizonte, capital do estado de Minas Gerais. Minha família era protestante e, portanto, nós não tínhamos vínculo com a maioria das tradições da Igreja Católica. Naqueles tempos, eram muito comuns em BH as tais das procissões, mas, por isso, a gente nunca participava, porém às vezes saíamos eu e os meus pais à rua para assistir a passagem desses cortejos. Eu gostava bastante de ver aquilo, era uma celebração muito bonita. Mas o que eu gostava mesmo era do astral que vinha acompanhando aquele grupo de pessoas: assombroso e metafísico; para uma criança, é claro. Numa dessas procissões que fomos assistir, já era noite escura, iluminada mais pelas velas acesas dos séquitos, quando eu ao olhar para a imagem de Jesus deitado e ensanguentado repousando sobre um belo estrado cuidadosamente enfeitado, que era carregado por alguns homens e que passava na nossa frente naquele instante e bem próximo de mim, entrei em transe. Só sei que é uma experiência muito forte para qualquer criança, e aquilo ficou indelevelmente gravado nos meus neurônios.

O problema mesmo dessa doutrina, o cristianismo, não seria nem o fato dela estar em franca ascensão, já que, hoje em dia, estranhamente nós podemos assistir um culto pela TV ou até mesmo pelo rádio, e sim a questão de que ela está se desvirtuando das suas origens a cada dia. Isso é um grande problema. Eu adorava ir ao culto, era um verdadeiro espetáculo de fé, mas não daquela fé que ama um dinheirinho no bolso, egoísta; voltada unicamente para a auto-ajuda, principalmente econômica, e muito distante do altruísmo do cristianismo original. Uma fé que gosta de fazer escândalo, e ainda de propagar isso por todas as mídias possíveis. O evangélico de hoje, sob a égide da cruz de Jesus e doutrinado nesse pensamento cristão atual, é capaz de pisar na cabeça dos outros para provar perante a sociedade que é um "abençoado", financeiramente falando.

Eu via muita gente entrar em transe, principalmente nos dias do batismo, que era uma cerimônia impressionante; as pessoas ficavam em "alfa, beta, gama e teta". Às vezes eu sonhava com o meu dia de batismo, mas tinha medo de ali na hora me dar um troço, e ainda mais em público, pois seria o dia em que Cristo entraria dentro de mim, e nunca mais sairia. Eu estaria preenchido de Cristo para sempre, ou seja, eu também seria um Cristo, e essa glória seria tão grande que eu acho que desmaiaria. Os pastores tinham a calma e a sabedoria dos juízes, e eles não precisavam fazer muito esforço para provar isso. Se esses antigos pastores vissem os atuais, que só o que fazem é rebolar e cantar hinos em ritmo de axé em cima do púlpito, eles imediatamente chamariam o pessoal do hospício para fazer um resgate. Nada contra o axé, e sim contra esses recentes "pastores do axé". E, também, nada contra o rebolado, mas tudo tem a sua hora e o seu lugar. Contudo, se pudéssemos ver nessa atitude pelo menos um culto sincero à alegria, seria até louvável; mas nós sabemos muito bem que a intenção única e cínica é mesmo popularizar essa doutrina para que se possa avocar com facilidade cada vez mais fiéis, principalmente aqueles mais incultos e sem um senso crítico religioso, e assim os seus dízimos poderem engordar os bolsos desses pastores. Nunca vi, nos inúmeros cultos que presenciei, nenhum pastor se exaltar, a não ser quando a gente sentia que era meio como se ele estivesse realmente sendo tocado pela mão do Cristo, por ser um de seus pastores, cuja função, não posso esconder-lhes, já cheguei a almejar no primeiro período da minha vida, até a adolescência, época em que tomei contato pela primeira vez com as teorias da vida após a morte e da reencarnação, que infundiram em mim um desinteresse cada vez maior pelo cristianismo, à medida que eu me aprofundava nesses assuntos. Portanto, antigamente, não tinha isso de ficar gritando nos cultos. Aliás, não se gritava nada. E ai de quem gritasse ali, além de ter que ser expulso daquela reunião, seria também chamado de mal-educado. Ninguém tinha ataques, esperneava ou estrebuchava no chão. Os hinos eram lindos, maravilhosos, e acompanhados sempre e apenas por um melancólico piano. Tanto as letras quanto as melodias nos enlaçavam e nos arremessavam para outras esferas: "...  Oh! Quantas vezes eu te chamei, e tu negaste a minha lei, escuta a voz do teu Senhor: segue-me, segue-me...".

Atualmente, não só os pastores são falsos, como também as suas ovelhas.


28 março 2014

NIETZSCHE: PARA QUÊ E POR QUE A VERDADE?

"Para o Nietzsche, a história do conhecimento humano é a história da negação da vida, é a história de uma ilusão, é a história da construção de um modelo de homem que não existe e que jamais existirá. Para o Nietzsche, o homem construiu uma imagem de si muito superior ao que o homem consegue ser, e corre atrás dessa imagem. Então, Nietzsche tira esse antropocentrismo, que é o homem se sentindo o máximo, e diz: desce desse lugar."




23 março 2014

SOMATERAPIA, A CURA ATRAVÉS DO ANARQUISMO

A SOMATERAPIA, criada pelo patrono do Anarquismo no Brasil e formidável pessoa, o psiquiatra Roberto Freire, pode ser um grande passo no caminho da catarse que a humanidade precisará fazer para se libertar dos dogmas, padrões de comportamento, ideias, conceitos e preconceitos, que só o que fazem é cada vez mais lhe aprisionar.

O QUE É A SOMATERAPIA?

"É uma terapia corporal e em grupo, baseada no Anarquismo e na teoria de Wilhelm Reich, discípulo dissidente de Freud. A Somaterapia entende o conflito neurótico — que gera conflitos e dependências  a partir das relações de poder presentes em vários níveis da sociedade. Assim, o Anarquismo com ética filosófica procura permear a metodologia da Somaterapia, permitindo a identificação do autoritarismo nas relações interpessoais. Além da teoria reichiana, ela também adota o aqui-e-agora da Gestalt-terapia e as descobertas sobre a pragmática da comunicação humana presente nos estudos da Antipsiquiatria, especialmente o conceito de Duplo-Vínculo e sua implicação nas relações afetivas."
(http://pt.wikipedia.org/wiki/Somaterapia)



QUEM FOI ROBERTO FREIRE?
"Psicanalista, escritor, jornalista, dramaturgo, e antes de tudo um anarquista. Um anarquista graças a Deus?! Não, um anarquista graças a Eros. Um militante do prazer, um guru brasileiro, um guru da contracultura do terceiro mundo verde-amarelo."
(Antônio Abujamra)




19 março 2014

ANATOMIA DO PODER

Todo poder é fraco porque ele se fortalece da fraqueza daquilo que a ele obedece. E tudo que se apoia na "fraqueza dos fracos" é fraco pela sua própria natureza, a qual tem na fraqueza dos outros a base da sua fortaleza. A fragilidade da sustentabilidade do poder está na causalidade da sua transitoriedade, que está relacionada com o fato do poder subsistir com superioridade até que encontre a rivalidade de um outro em nivel de igualdade. O poder então é covarde. O poder também é ridículo, assim como o seu detentor, mesmo que ele utilize o artifício de ser em nome da paz e do amor.

Essas premissas são válidas para todo e qualquer poder, inclusive o poder de Cristo que se vangloria na fraqueza do cristão, ou até mesmo o poder de Deus que se realiza na fraqueza da sua Criação.

Você deve estar pensando que eu deveria pedir perdão... Não, não pedirei perdão. Se o fizesse, estaria fugindo da razão, pensando com emoção.



16 março 2014

SANTO DAIME OU AYAHUASCA


Agora, vou relatar uma das minhas experiências que eu tive com religião, que, para não variar, foi um completo desastre, e que me mostrou, mais uma vez, a falta de estrutura das religiões. É a respeito da doutrina do Santo Daime, a qual eu abracei por muitos anos. Em seus rituais é utilizado um chá altamente alucinógeno feito com a adição de dois tipos de determinadas plantas originárias da floresta amazônica: um cipó e uma folha. Esse chá foi descoberto pelos Incas, no Peru, há milhares de anos; e é utilizado pela maioria das tribos indígenas da Amazônia. Essa bebida também é conhecida pelo nome de Ayahuasca, na língua Quíchua. O interessante é que se o chá for feito com essas plantas separadamente e depois juntado, não causa o menor efeito em termos de alteração da consciência. Portanto, ele deve ser preparado com as plantas juntas, na dosagem certa e obedecendo-se com rigor uma série de outros procedimentos.

Morava ainda em Belo Horizonte, no final da década de 1970, quando li um artigo numa revista sobre essa doutrina, cujo título era bem sugestivo: "Divina Piração". Recortei esta matéria, guardei-a comigo, e disse para mim mesmo que um dia iria conhecê-la. Uns bons anos depois, e já residindo em São Paulo, aproveitei umas férias do trabalho, peguei um avião — naquela época era avião à hélice ainda — e fui parar lá na cidade de Rio Branco, no estado do Acre. Nessa época, o Santo Daime estava praticamente limitado ainda somente a esse estado, ao contrário do que é atualmente, com vários centros em muitos estados brasileiros, e alguns até no exterior. Fiquei hospedado por 3 dias numa comunidade da doutrina, num sítio chamado Colônia Cinco Mil, localizado na periferia da capital.

Logo no primeiro dia, à noite, eu participei de um ritual com essa bebida, tomando-a pela primeira vez na minha vida. Foram apenas dois copinhos de nada, que não foram suficientes para alterar em muito a minha consciência naquele dia, apenas senti um leve bem-estar e uma gostosa calma. No segundo dia, tomei o Daime novamente, na mesma quantidade do dia anterior e da mesma garrafa; tudo foi igual, inclusive o trabalho e a sua duração. Rapaz! Eu nunca sofri tanto assim na minha vida, juro por Deus. Eu não gosto nem de lembrar, ao mesmo tempo em que eu também não consigo esquecer. Entrei num processo profundidíssimo de introspecção e auto-análise, que me levaram ao completo desespero, fazendo-me sofrer bastante ao eu ter que lutar contra um sentimento muito doloroso de falta de identidade. Eu sabia quem eu era, mas não sabia o que eu era em síntese. Sabia o meu nome, onde eu morava e tudo o que eu tinha feito na minha vida até aquele momento; minha memória ficou intacta. O sentimento era de que estava faltando alguma coisa, alguma informação para a minha consciência se completar. Eu não fiquei tonto, nem louco, nem agressivo, não perdi a minha educação, a qual muita gente acha que pode perder só porque está sob o efeito de uma droga, de um alucinógeno, e conseguia conversar normalmente com as pessoas. Mas por dentro parecia que o Santo Daime havia feito entrar em erupção o vulcão da maior dúvida que persegue todo e qualquer ser humano, desde o seu nascimento até a sua morte, e que pode ser expressa pela pergunta: "Quem sou eu, o que eu sou, o que eu estou fazendo neste mundo?". Eu já tinha tido vislumbres dessa sensação outras vezes e sem estar com a consciência alterada, mas esses vislumbres nem chegavam aos pés daquele sentimento de um enorme vazio, de que estava faltando em mim uma espécie de conhecimento fundamental que eu desconhecia completamente. Aquela bebida havia ampliado esse sentimento pelo menos umas mil vezes, não é possível. O Daime tem essa característica de servir como uma lente de aumento, mostrando para nós claramente as nossas fraquezas e virtudes, para que nenhum daimista fale depois que "não viu direito". Esse tipo de viagem, uma bad trip — e põe bad nisso —, nessa doutrina, é muito comum e tem até um nome específico: "peia". Geralmente o efeito do Daime termina assim que o trabalho também se encerra. Mas, nessa minha experiência, não sei o porquê, ele ficou atuando em mim, ou seja, eu fiquei, como se diz na doutrina, "mirando" ainda por várias horas após o término da reunião, a qual costuma ter uma longa duração, bailando-se ao som de instrumentos musicais e maracás, e cantando-se hinos, cujos versos nos remetem ao Cristianismo, ao Espiritismo e à linha de Umbanda. E o pior é que o efeito dele era intermitente, ía e voltava. Quando eu achava que estava livre dele, de repente, já vinha ele voltando de novo com tudo. Só sei que naquela madrugada não consegui dormir, e a única solução que encontrei naquele momento desesperador, para me livrar o mais rápido possível do efeito daquela bebida, foi tomar bastante água na tentativa de expulsá-la definitivamente da minha corrente sanguínea. No terceiro dia pela manhã eu já estava embarcando de volta para São Paulo, e dizendo para mim mesmo que nunca mais eu iria tomar o Daime, aquela bebida odiosa.

Passados dois anos, e depois de muito matutar, acredite se quiser, mas, como todo bom buscador, eu retornei àquela comunidade para fazer uma segunda experiência com aquele alucinógeno. Dessa vez, pelo menos, eu não passei mal e fiquei sabendo que na cidade de São Paulo estava sendo instalado o seu primeiro centro de Daime, chamado "Flor das Águas". Recebi aquela notícia com alegria, pois assim ficaria muito mais fácil e menos oneroso eu continuar com a minha pesquisa. Esse centro era comandado por uma pessoa bastante evoluída espiritualmente, da qual eu acabei me tornando um quase-discípulo. Digo quase porque nessa doutrina o único que pode ser considerado um mestre é o próprio Daime, a própria bebida. Mas ele me ensinou muitas coisas, que eu nem sonhava  que existiam, principalmente em relação à linha da Umbanda, que passei a ver com outros olhos, que antes, devo dizer, eram bem preconceituosos, como o é para a maioria das pessoas, por pura falta de informação. Dentro dessa doutrina, eu pude experimentar uma coisa realmente fantástica que é ficar sob o controle dessas entidades chamadas Caboclos. Eu consegui a façanha de receber esse tipo de energia e pude entender exatamente o que ocorre com a pessoa, também chamada de "Cavalo", que fica submetida à ela. Existe uma explicação para aqueles movimentos que aparecem como espasmos síncronos, principalmente localizados nos ombros e na coluna vertebral: eu acho que eles ficam controlando a Kundalini — nome dado pelo hinduísmo a nossa energia sexual. Eu acho não, eu tenho certeza. Eles controlam e aperfeiçoam essa energia na pessoa, cuja coluna vertebral se comporta como se fosse a corda de um violão a ser dedilhada por um virtuose, cuja maestria nos permite dizer que esses Caboclos, sem dúvida, são seres muito poderosos; e também bondosos. É muito prazeroso, e a gente se sente em estado de graça. Se eu pudesse, ficaria o resto da minha vida sentindo aquele prazer tão intenso. Eles até que têm bastante ética e, portanto, são muito evoluídos, esses tais do Reino de Aruanda. O problema principal da Umbanda é que muita gente simula, enquanto outras tantas se auto-sugestionam. Mal sabendo elas que agindo assim estarão cada vez mais longe da verdade. Mas isso é derivado de uma falha pedagógica. Porém, nem tudo é alegria na vida de um "cavalo" — um cavalo verdadeiro, é claro —, pois às vezes essa energia vem tão forte que dá um medo danado, e a vontade que tem o cavalo é de sair correndo em disparada. Para quem já sentiu essa força é muito fácil identificar quando é ou não uma fraude, que é o que mais se vê por aí.

Coincidentemente, essa falha se perpetuou também no nosso grupo, gerando um conflito interno entre os seus integrantes, que acabou fazendo com que o nosso centro fosse o primeiro a ser erigido em São Paulo, e também o primeiro a ser destruído. E o mais irônico, é que o líder daquela insurreição contra a linha da Umbanda era um europeu, que não tinha nada a ver com a nossa cultura, e que nem sequer ao bailar conseguia ter a ginga, o swing, que nós brasileiros temos de sobra, e parecia um palito dançando entre os dentes. Mais uma vez a religião me abriu as portas, para depois fechá-las impiedosamente, deixando-me extremamente deprimido, principalmente por ter interrompido, e abruptamente, as minhas pesquisas importantes.

O mais estranho dessa estória é que se não tivesse havido essa contenda, essa guerra dos Não-Umbandistas contra os Umbandistas, no nosso grupo, gerada pela desinformação e pelo seu filho predileto, o preconceito, o Glauco Villas Boas provavelmente não teria partido para a construção da sua própria igreja e, portanto, não teria sofrido a tragédia que todos nós conhecemos. O Glauco era uma pessoa muito séria, contrastando com o fato de ele ter sido um famoso cartunista. Ele respirava a doutrina, e o seu amor por ela era muito grande. O Santo Daime estava para o Glauco, assim como Cristo estava para Paulo. Por coincidência ou não, tudo isso aconteceu numa cidade e num estado chamados São Paulo. O Glauco seria capaz até de dar a sua própria vida pela doutrina, como acabou acontecendo. E, para piorar ainda mais, levando também a vida do seu querido filho. Belo cabedal para uma doutrina religiosa, para o Reino dos Juramidans, para a Hierarquia do Ayahuasca no Astral, e para Oxóssi e seus Caboclos que, além de tudo, foram expulsos não só do seu terreiro, como também de toda a sua própria "senzala": 8 balas de um revólver calibre 765 e 2 assassinatos, com 4 balas em cada um.


O cipó e a folha



Mestre Irineu, o fundador

O ritual

Glauco Villas Boas

Glauco e o seu filho; e o assassino em primeiro plano





13 março 2014

A IGNORÂNCIA

No início de 1980, tinha acabado de obter a minha formatura em engenharia, mas estava ainda desempregado e, portanto, sem grana. Eis que surgiu então, nesse entremeio, o concurso do IBGE para recrutamento de recenseadores para o Censo desse mesmo ano, que, como sabemos, é realizado apenas de dez em dez anos. Passei no concurso, graças a Deus, mas foi bem difícil. Senti-me honrado em poder participar de um projeto governamental. Por outro lado, pude ver com os meus próprios olhos, já que tive que visitar família por família do meu povo, que ainda havia muito o que fazer para que a nossa sociedade, a sociedade brasileira, pudesse viver pelo menos com dignidade. Lembro-me muito bem de um episódio, que presenciei na minha tarefa de recenseador, o qual perpetua na minha memória, a ricochetear dentro da minha cabeça até hoje; quando eu estava fazendo o meu trabalho numa pequena favela na periferia de Belo Horizonte, e entrevistando uma mãe com um filho pequeno nos braços. Ela, em pranto, dizia que tinha medo que eu estivesse ali para levar o filho dela embora, que o governo estava fazendo isso durante o Censo. Quase chorando também, eu me prontifiquei rapidamente a explicar-lhe que o que ela tinha ouvido das outras pessoas sobre os objetivos do Censo estava totalmente errado. Expliquei-lhe que o governo não queria levar os filhinhos embora de suas queridas mãezinhas, muito pelo contrário, ele queria mesmo é saber, confirmar, ter certeza de que os filhinhos estavam mesmo com as suas queridas mãezinhas e se estavam bem; fortes e sadios. Meu Deus! A partir desse episódio alguma coisa mudou em mim. A ignorância ainda impera no nosso país, devo dizer, e vai a fronteiras impensáveis. Só vivendo na prática para saber. Muitos vão achar que essa mulher era doida. Mas não era, eu garanto. Era apenas mais um caso de ignorância profunda, ainda não assistida pelo dever constitucional do Estado de prover educação para todos os seus filhos.



07 março 2014

DEGREDO OU DESTERRO

Degredo ou desterro, tanto faz, não há o que diferenciar. É levar para longe, é desterrar, degredar. É exilar, manter fora de sua terra um réu que lá permanecerá até a sua pena se encerrar; quando então poderá comutar, voltar para o seu próprio lugar. Era comum na ditadura militar, uma outra opção além de matar quem se opunha a calar e lutava para o Brasil desse regime se libertar. Era a força do canhão a censurar quem tinha a força do pensar e odiava a ideia do país se fardar. Até que um dia chegamos lá, apesar de que devagar. Alcançamos essa liberdade, mas voltamos de outras formas a nos escravizar, com pesar.



06 março 2014

A BÍBLIA E SUA APOLOGIA AO ALCOOLISMO

A Bíblia, como todo mundo sabe, é o livro mais famoso da humanidade, é o mais lido, e é o alicerce do cristianismo, sendo por isso considerado um livro sagrado e muito respeitado por todos os cristãos e pela maioria dos não cristãos também, apesar de que de certa forma ele poderia ser visto como bastante pessimista, demodê, completamente inadaptado aos tempos atuais, totalmente fora do contexto do pensamento e do modo de vida do homem contemporâneo, e, além de tudo, ele ainda é apologético de uma das piores drogas, que é o álcool, que provoca milhões de mortes todos os anos no mundo, devido aos efeitos catastróficos que o álcool tem no nosso organismo, sem contar os que morrem em acidentes de trânsito devido a ele.

Na Bíblia, encontram-se mais de 200 citações da palavra "vinho", e, além de não proibir o seu consumo, ela chega até a ter a ousadia de incentivá-lo. Por exemplo, em Provérbios, no capítulo 31, o versículo 6, diz o seguinte:

"Dai bebida forte ao que está prestes a perecer, e o vinho aos amargurados de espírito."

E no versículo 7, está escrito ainda:

"Que beba, e esqueça da sua pobreza, e da sua miséria não se lembre mais."

Bom... se isso não é apologia ao alcoolismo, então eu não sei mais o que é apologia e nem o que é alcoolismo.

Apesar de que só o primeiro milagre de Cristo, que foi a transformação de aproximadamente 600 litros de água em vinho, em uma festa de casamento por ter o vinho acabado, já bastaria para servir de incentivo ao consumo de bebida alcoólica na nossa sociedade; para que o álcool fosse considerado, até hoje, a única droga lícita, a única droga que os seus usuários podem consumir livremente sem serem taxados de criminosos como acontece com as outras drogas. Essa inversão de valores podemos atribuir como causa, mesmo que indiretamente, à própria Bíblia, ao cristianismo. Por que quem consome álcool é muitas vezes considerado virtuoso e estiloso, ao passo que, por exemplo, quem consome cannabis é considerado criminoso e horroroso, pela nossa sociedade ocidental? E se naquela região e naquela época em que Cristo viveu, ao invés do vinho ser a droga do momento, fosse a cannabis? Será então que ele transformaria capim em maconha?

Na realidade, está bem claro aí que Jesus utilizou os seus poderes paranormais nessa transformação apenas como um instrumento de marketing da sua doutrina. Que necessidade premente é essa de se materializar bebida alcoólica em uma festa? Isso só teria alguma lógica se considerarmos que Cristo tinha consciência de que se tirássemos as suas demonstrações de poder psíquico não sobraria nada no cristianismo, e assim a sua passagem pela Terra seria esquecida em pouco tempo. Mas, na minha opinião, tudo isso não passou de uma grande criancice; e se Deus, o criador do universo, participou disso, eu considero ele o mais criança de todos, mesmo considerando toda a complexidade e a aparente seriedade da sua criação. É preciso dizer também que a Bíblia é um livro inconsequente e imoral, que vem erroneamente querendo ditar, por milênios, a moral de toda uma civilização.

Entretanto, é preciso esclarecer que as religiões, de um jeito ou de outro, sempre estiveram ligadas às drogas; porém, mais comumente, às chamadas drogas enteógenas, utilizadas quase sempre apenas durante os seus rituais. Esse termo "enteógeno" é um neologismo derivado da palavra inglesa "entheogenic", e designaria um tipo de substância com capacidade de produzir uma alteração de consciência que induziria no indivíduo um estado de autopercepção da sua "natureza divina". Como exemplos disso, nós podemos citar os sadhus na Índia, que usam o haxixe; os rastafaris, na Jamaica, que utilizam a cannabis, na sua forma original, sem o processamento que leva ao haxixe; tem os xamãs, na América do Sul e na América Central, que empregam o peiote, o cacto São Pedro, os cogumelos alucinógenos, a sálvia divinorum, entre outras drogas, também chamadas de "plantas de poder"; inclusive o ayahuasca, que foi incorporado à doutrina brasileira conhecida como Santo Daime; e, por último, podemos citar também a jurema, que é utilizada na umbanda e no candomblé. Ao dizer isso, eu não estou querendo fazer apologia a essas drogas, longe disso. Além do quê, eu não aconselharia ninguém a usar essas drogas enteógenas, principalmente se elas forem utilizadas fora desse contexto que nós estamos tratando aqui, ou seja, se elas forem usadas apenas de modo recreativo e sem ter, por perto, uma pessoa experiente nesses assuntos para dar um suporte, já que essas drogas enteógenas colocam o indivíduo cara a cara consigo mesmo, e é muito difícil essa experiência, porque, como elas funcionam como uma lente de aumento do nosso subconsciente, elas podem provocar a erupção de sentimentos e sensações bastante indesejáveis, e podem mostrar para a pessoa facetas dela própria que ela nem sonhava que existiam dentro dela; ela se vê obrigada a encarar as suas próprias mazelas mentais e espirituais, e isso é muito complicado, é uma experiência muito forte, que geralmente leva ao que é chamado de "bad trip", de viagem ruim, fazendo com que a pessoa fique com a cabeça meio "dançada", como se diz na gíria, e às vezes até de modo permanente.

O ideal mesmo, na minha opinião, é viver sem precisar usar droga nenhuma. E a Bíblia, como sempre, para conservar a sua tradicional ligação com o azar, com a má sorte, com o mau agouro, resolveu, desgraçada e azaradamente, usar o álcool como a sua droga modelo, que, ao contrário das drogas enteógenas, ao invés de fazer o pensamento evoluir, de criar a introspecção, a autoanálise, faz justamente o oposto; o usuário do álcool geralmente acaba se transformando em um idiota, sem contar os graves prejuízos que o álcool traz ao nosso organismo, principalmente ao fígado, que é o primeiro órgão a ser sacrificado.