16 março 2014

SANTO DAIME OU AYAHUASCA


Agora, vou relatar uma das minhas experiências que eu tive com religião, que, para não variar, foi um completo desastre, e que me mostrou, mais uma vez, a falta de estrutura das religiões. É a respeito da doutrina do Santo Daime, a qual eu abracei por muitos anos. Em seus rituais é utilizado um chá altamente alucinógeno feito com a adição de dois tipos de determinadas plantas originárias da floresta amazônica: um cipó e uma folha. Esse chá foi descoberto pelos Incas, no Peru, há milhares de anos; e é utilizado pela maioria das tribos indígenas da Amazônia. Essa bebida também é conhecida pelo nome de Ayahuasca, na língua Quíchua. O interessante é que se o chá for feito com essas plantas separadamente e depois juntado, não causa o menor efeito em termos de alteração da consciência. Portanto, ele deve ser preparado com as plantas juntas, na dosagem certa e obedecendo-se com rigor uma série de outros procedimentos.

Morava ainda em Belo Horizonte, no final da década de 1970, quando li um artigo numa revista sobre essa doutrina, cujo título era bem sugestivo: "Divina Piração". Recortei esta matéria, guardei-a comigo, e disse para mim mesmo que um dia iria conhecê-la. Uns bons anos depois, e já residindo em São Paulo, aproveitei umas férias do trabalho, peguei um avião — naquela época era avião à hélice ainda — e fui parar lá na cidade de Rio Branco, no estado do Acre. Nessa época, o Santo Daime estava praticamente limitado ainda somente a esse estado, ao contrário do que é atualmente, com vários centros em muitos estados brasileiros, e alguns até no exterior. Fiquei hospedado por 3 dias numa comunidade da doutrina, num sítio chamado Colônia Cinco Mil, localizado na periferia da capital.

Logo no primeiro dia, à noite, eu participei de um ritual com essa bebida, tomando-a pela primeira vez na minha vida. Foram apenas dois copinhos de nada, que não foram suficientes para alterar em muito a minha consciência naquele dia, apenas senti um leve bem-estar e uma gostosa calma. No segundo dia, tomei o Daime novamente, na mesma quantidade do dia anterior e da mesma garrafa; tudo foi igual, inclusive o trabalho e a sua duração. Rapaz! Eu nunca sofri tanto assim na minha vida, juro por Deus. Eu não gosto nem de lembrar, ao mesmo tempo em que eu também não consigo esquecer. Entrei num processo profundidíssimo de introspecção e auto-análise, que me levaram ao completo desespero, fazendo-me sofrer bastante ao eu ter que lutar contra um sentimento muito doloroso de falta de identidade. Eu sabia quem eu era, mas não sabia o que eu era em síntese. Sabia o meu nome, onde eu morava e tudo o que eu tinha feito na minha vida até aquele momento; minha memória ficou intacta. O sentimento era de que estava faltando alguma coisa, alguma informação para a minha consciência se completar. Eu não fiquei tonto, nem louco, nem agressivo, não perdi a minha educação, a qual muita gente acha que pode perder só porque está sob o efeito de uma droga, de um alucinógeno, e conseguia conversar normalmente com as pessoas. Mas por dentro parecia que o Santo Daime havia feito entrar em erupção o vulcão da maior dúvida que persegue todo e qualquer ser humano, desde o seu nascimento até a sua morte, e que pode ser expressa pela pergunta: "Quem sou eu, o que eu sou, o que eu estou fazendo neste mundo?". Eu já tinha tido vislumbres dessa sensação outras vezes e sem estar com a consciência alterada, mas esses vislumbres nem chegavam aos pés daquele sentimento de um enorme vazio, de que estava faltando em mim uma espécie de conhecimento fundamental que eu desconhecia completamente. Aquela bebida havia ampliado esse sentimento pelo menos umas mil vezes, não é possível. O Daime tem essa característica de servir como uma lente de aumento, mostrando para nós claramente as nossas fraquezas e virtudes, para que nenhum daimista fale depois que "não viu direito". Esse tipo de viagem, uma bad trip — e põe bad nisso —, nessa doutrina, é muito comum e tem até um nome específico: "peia". Geralmente o efeito do Daime termina assim que o trabalho também se encerra. Mas, nessa minha experiência, não sei o porquê, ele ficou atuando em mim, ou seja, eu fiquei, como se diz na doutrina, "mirando" ainda por várias horas após o término da reunião, a qual costuma ter uma longa duração, bailando-se ao som de instrumentos musicais e maracás, e cantando-se hinos, cujos versos nos remetem ao Cristianismo, ao Espiritismo e à linha de Umbanda. E o pior é que o efeito dele era intermitente, ía e voltava. Quando eu achava que estava livre dele, de repente, já vinha ele voltando de novo com tudo. Só sei que naquela madrugada não consegui dormir, e a única solução que encontrei naquele momento desesperador, para me livrar o mais rápido possível do efeito daquela bebida, foi tomar bastante água na tentativa de expulsá-la definitivamente da minha corrente sanguínea. No terceiro dia pela manhã eu já estava embarcando de volta para São Paulo, e dizendo para mim mesmo que nunca mais eu iria tomar o Daime, aquela bebida odiosa.

Passados dois anos, e depois de muito matutar, acredite se quiser, mas, como todo bom buscador, eu retornei àquela comunidade para fazer uma segunda experiência com aquele alucinógeno. Dessa vez, pelo menos, eu não passei mal e fiquei sabendo que na cidade de São Paulo estava sendo instalado o seu primeiro centro de Daime, chamado "Flor das Águas". Recebi aquela notícia com alegria, pois assim ficaria muito mais fácil e menos oneroso eu continuar com a minha pesquisa. Esse centro era comandado por uma pessoa bastante evoluída espiritualmente, da qual eu acabei me tornando um quase-discípulo. Digo quase porque nessa doutrina o único que pode ser considerado um mestre é o próprio Daime, a própria bebida. Mas ele me ensinou muitas coisas, que eu nem sonhava  que existiam, principalmente em relação à linha da Umbanda, que passei a ver com outros olhos, que antes, devo dizer, eram bem preconceituosos, como o é para a maioria das pessoas, por pura falta de informação. Dentro dessa doutrina, eu pude experimentar uma coisa realmente fantástica que é ficar sob o controle dessas entidades chamadas Caboclos. Eu consegui a façanha de receber esse tipo de energia e pude entender exatamente o que ocorre com a pessoa, também chamada de "Cavalo", que fica submetida à ela. Existe uma explicação para aqueles movimentos que aparecem como espasmos síncronos, principalmente localizados nos ombros e na coluna vertebral: eu acho que eles ficam controlando a Kundalini — nome dado pelo hinduísmo a nossa energia sexual. Eu acho não, eu tenho certeza. Eles controlam e aperfeiçoam essa energia na pessoa, cuja coluna vertebral se comporta como se fosse a corda de um violão a ser dedilhada por um virtuose, cuja maestria nos permite dizer que esses Caboclos, sem dúvida, são seres muito poderosos; e também bondosos. É muito prazeroso, e a gente se sente em estado de graça. Se eu pudesse, ficaria o resto da minha vida sentindo aquele prazer tão intenso. Eles até que têm bastante ética e, portanto, são muito evoluídos, esses tais do Reino de Aruanda. O problema principal da Umbanda é que muita gente simula, enquanto outras tantas se auto-sugestionam. Mal sabendo elas que agindo assim estarão cada vez mais longe da verdade. Mas isso é derivado de uma falha pedagógica. Porém, nem tudo é alegria na vida de um "cavalo" — um cavalo verdadeiro, é claro —, pois às vezes essa energia vem tão forte que dá um medo danado, e a vontade que tem o cavalo é de sair correndo em disparada. Para quem já sentiu essa força é muito fácil identificar quando é ou não uma fraude, que é o que mais se vê por aí.

Coincidentemente, essa falha se perpetuou também no nosso grupo, gerando um conflito interno entre os seus integrantes, que acabou fazendo com que o nosso centro fosse o primeiro a ser erigido em São Paulo, e também o primeiro a ser destruído. E o mais irônico, é que o líder daquela insurreição contra a linha da Umbanda era um europeu, que não tinha nada a ver com a nossa cultura, e que nem sequer ao bailar conseguia ter a ginga, o swing, que nós brasileiros temos de sobra, e parecia um palito dançando entre os dentes. Mais uma vez a religião me abriu as portas, para depois fechá-las impiedosamente, deixando-me extremamente deprimido, principalmente por ter interrompido, e abruptamente, as minhas pesquisas importantes.

O mais estranho dessa estória é que se não tivesse havido essa contenda, essa guerra dos Não-Umbandistas contra os Umbandistas, no nosso grupo, gerada pela desinformação e pelo seu filho predileto, o preconceito, o Glauco Villas Boas provavelmente não teria partido para a construção da sua própria igreja e, portanto, não teria sofrido a tragédia que todos nós conhecemos. O Glauco era uma pessoa muito séria, contrastando com o fato de ele ter sido um famoso cartunista. Ele respirava a doutrina, e o seu amor por ela era muito grande. O Santo Daime estava para o Glauco, assim como Cristo estava para Paulo. Por coincidência ou não, tudo isso aconteceu numa cidade e num estado chamados São Paulo. O Glauco seria capaz até de dar a sua própria vida pela doutrina, como acabou acontecendo. E, para piorar ainda mais, levando também a vida do seu querido filho. Belo cabedal para uma doutrina religiosa, para o Reino dos Juramidans, para a Hierarquia do Ayahuasca no Astral, e para Oxóssi e seus Caboclos que, além de tudo, foram expulsos não só do seu terreiro, como também de toda a sua própria "senzala": 8 balas de um revólver calibre 765 e 2 assassinatos, com 4 balas em cada um.


O cipó e a folha



Mestre Irineu, o fundador

O ritual

Glauco Villas Boas

Glauco e o seu filho; e o assassino em primeiro plano





3 comentários:

  1. Que conteúdo triste e tendencioso!
    Foi provado cientificamente que a ayahuasca não é alucinógena e sim enteógena.
    O seu medo foi aumentado exatamente para você saber lidar com ele. Você encara seus medos e suas sombras com a "peia" como você mesmo citou.
    O trabalho da medicina não acaba quando o ritual se encerra, ele é encarado dia-a-dia com uma autoanálise de tudo que ocorreu.

    Meu amigo lhe digo, a ayahuasca é para todos. Mas nem todos são para a ayahuasca!

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. O problema dessa doutrina, como está explícito nesse artigo, não é a bebida em si, mas a falta de estrutura pedagógica como instituição religiosa. Em nenhum momento eu depreciei ou neguei o efeito curativo do chá. Além disso, existe uma outra questão mais grave ainda que é o fato das religiões em geral serem reprodutoras de hierarquias de poder e autoridade, as quais invariavelmente recaem em autoritarismo, gerando assim lutas, conflitos e competições entre os seus próprios seguidores.

      Excluir
  2. Para superar estes dilemas sugiro tomar sempre com representantes das etnias que conhecem o referido chá comandando o ritual. Isso no fundo é uma tecnologia e os índios mais preparados tem o conhecimento e a segurança necessária para conduzir nossas consciências por caminhos que eles já trilharam, e sabem como voltar em segurança, sempre antes de um ritual eles "blindam" o entorno pois se nós sentimos o poder, e desfrutamos dele para expansão de nossa consciência, os seres menos evoluidos que nos rodeiam tambem sao atraidos pela cerimonia, mas um pajé atento acolhe esses seres e encaminha para o fogo que sempre se faz presente no ritual para sua transmutação e evolução. São milhares de anos de conhecimento pra serem desperdiçados. Sugiro Noke Koi Katukinas, ywanawas, ashaninkas, shinibos, huni kuin etc.. e boa miração.

    ResponderExcluir