11 abril 2014

PASTORES DO AXÉ

Quando tinha os meus 4 anos de idade, ainda no final da década de 1950, eu morava em Belo Horizonte, capital do estado de Minas Gerais. Minha família era protestante e, portanto, nós não tínhamos vínculo com a maioria das tradições da Igreja Católica. Naqueles tempos, eram muito comuns em BH as tais das procissões, mas, por isso, a gente nunca participava, porém às vezes saíamos eu e os meus pais à rua para assistir a passagem desses cortejos. Eu gostava bastante de ver aquilo, era uma celebração muito bonita. Mas o que eu gostava mesmo era do astral que vinha acompanhando aquele grupo de pessoas: assombroso e metafísico; para uma criança, é claro. Numa dessas procissões que fomos assistir, já era noite escura, iluminada mais pelas velas acesas dos séquitos, quando eu ao olhar para a imagem de Jesus deitado e ensanguentado repousando sobre um belo estrado cuidadosamente enfeitado, que era carregado por alguns homens e que passava na nossa frente naquele instante e bem próximo de mim, entrei em transe. Só sei que é uma experiência muito forte para qualquer criança, e aquilo ficou indelevelmente gravado nos meus neurônios.

O problema mesmo dessa doutrina, o cristianismo, não seria nem o fato dela estar em franca ascensão, já que, hoje em dia, estranhamente nós podemos assistir um culto pela TV ou até mesmo pelo rádio, e sim a questão de que ela está se desvirtuando das suas origens a cada dia. Isso é um grande problema. Eu adorava ir ao culto, era um verdadeiro espetáculo de fé, mas não daquela fé que ama um dinheirinho no bolso, egoísta; voltada unicamente para a auto-ajuda, principalmente econômica, e muito distante do altruísmo do cristianismo original. Uma fé que gosta de fazer escândalo, e ainda de propagar isso por todas as mídias possíveis. O evangélico de hoje, sob a égide da cruz de Jesus e doutrinado nesse pensamento cristão atual, é capaz de pisar na cabeça dos outros para provar perante a sociedade que é um "abençoado", financeiramente falando.

Eu via muita gente entrar em transe, principalmente nos dias do batismo, que era uma cerimônia impressionante; as pessoas ficavam em "alfa, beta, gama e teta". Às vezes eu sonhava com o meu dia de batismo, mas tinha medo de ali na hora me dar um troço, e ainda mais em público, pois seria o dia em que Cristo entraria dentro de mim, e nunca mais sairia. Eu estaria preenchido de Cristo para sempre, ou seja, eu também seria um Cristo, e essa glória seria tão grande que eu acho que desmaiaria. Os pastores tinham a calma e a sabedoria dos juízes, e eles não precisavam fazer muito esforço para provar isso. Se esses antigos pastores vissem os atuais, que só o que fazem é rebolar e cantar hinos em ritmo de axé em cima do púlpito, eles imediatamente chamariam o pessoal do hospício para fazer um resgate. Nada contra o axé, e sim contra esses recentes "pastores do axé". E, também, nada contra o rebolado, mas tudo tem a sua hora e o seu lugar. Contudo, se pudéssemos ver nessa atitude pelo menos um culto sincero à alegria, seria até louvável; mas nós sabemos muito bem que a intenção única e cínica é mesmo popularizar essa doutrina para que se possa avocar com facilidade cada vez mais fiéis, principalmente aqueles mais incultos e sem um senso crítico religioso, e assim os seus dízimos poderem engordar os bolsos desses pastores. Nunca vi, nos inúmeros cultos que presenciei, nenhum pastor se exaltar, a não ser quando a gente sentia que era meio como se ele estivesse realmente sendo tocado pela mão do Cristo, por ser um de seus pastores, cuja função, não posso esconder-lhes, já cheguei a almejar no primeiro período da minha vida, até a adolescência, época em que tomei contato pela primeira vez com as teorias da vida após a morte e da reencarnação, que infundiram em mim um desinteresse cada vez maior pelo cristianismo, à medida que eu me aprofundava nesses assuntos. Portanto, antigamente, não tinha isso de ficar gritando nos cultos. Aliás, não se gritava nada. E ai de quem gritasse ali, além de ter que ser expulso daquela reunião, seria também chamado de mal-educado. Ninguém tinha ataques, esperneava ou estrebuchava no chão. Os hinos eram lindos, maravilhosos, e acompanhados sempre e apenas por um melancólico piano. Tanto as letras quanto as melodias nos enlaçavam e nos arremessavam para outras esferas: "...  Oh! Quantas vezes eu te chamei, e tu negaste a minha lei, escuta a voz do teu Senhor: segue-me, segue-me...".

Atualmente, não só os pastores são falsos, como também as suas ovelhas.


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